A gente prometeu se encontrar no amanhã, mas o amanhã nunca chegou

By Sou Petrus - 24.5.20


Antes de começar este texto, coloque a música: 
Lana Del Rey - Tomorrow Never Came (feat. Sean Lennon) 

4 de Janeiro de 2020: eu ainda tenho a sensação da ansiedade em te ver percorrer pelas minhas mãos, eu atravessei asfalto e oceano para te ver. Cheguei de madrugada e te vi com os olhos marejados me esperando às duas da manhã praticamente, fazia calor, mas ventava muito na rua onde você morava. Nos abraçamos e foi a maneira mais intensa de demonstrar a saudade, eu senti seus lábios tocarem os meus depois de quase um ano sem te ver, depois de quase um ano sem te abraçar. Eu te senti da maneira mais genuína que alguém poderia sentir.

Tirei seu moletom e aquele shorts azul que você tem e fizemos amor como nunca fizemos antes, eu consigo sentir seu gosto ainda, consigo sentir seu toque, o suor que escorria pela sua testa e que descia pelas suas costas, enquanto eu te apalpava como se fosse a última vez, como se não tivéssemos o amanhã como resposta de sobrevivência. A gente fez amor como nunca fizemos antes e isso tornou tudo tão surreal que, hoje, depois de 5 meses e 20 dias eu ainda consigo sentir o êxtase que foi te tocar como da primeira vez.

A gente tomou café naquela padaria, que você dizia que adorava, porque tinha o melhor bolo do bairro, nós não comemos bolo, mas comemos misto quente, e realmente, nada a declarar, era perfeito, não sei se foi perfeito, por ser, ou por estar com você naquele pequeno momento. Partimos para a ponte Hercílio Luz, era a recente reinauguração do ponto turístico de onde você morava. Estava superlotada, mas de todo o tempo que a gente passou ali, em cima da ponte, eu só consigo lembra de como estávamos felizes e de como deslumbrávamos da altura e de como aquela ponte balançava, era instável demais, parecia que ia desmoronar a qualquer momento com nós dois ali, em cima dela.

Você tocava meus dedos e entrelaçávamos as mãos enquanto você gravava um vídeo nosso, com um sorriso abestalhado no rosto, atravessamos a ponte, tiramos fotos e andamos por um longo período, naquele sol escaldante, parecia uma eternidade, mas na real, olhando de longe, neste momento, aquele momento não passou de uma fração de segundo, eu poderia ter aproveitado mais. É muito doido, porque a sua imagem aparece pra mim enquanto digito tudo isso.

Se eu soubesse que o futuro seria tão incerto, que a gente corria o risco de nunca mais se ver, se eu soubesse, teria andado mais devagar, teria apreciado mais aquela vista com você e encontrado motivos para permanecer ali, parado, por horas, por horas, por horas...

Vivemos da promessa de que o amanhã reserva momentos incríveis, mas é uma incerteza tão imensa, porque o amanhã pode apenas nos reservar a espera, a espera para se ver, se encontrar, se abraçar, se beijar, amar de forma genuína, mas o amanhã pode nunca chegar, o amanhã pode não ter você nele, pode não ter a nossa história mais. Naquele último dia em que nos beijamos, antes de eu ir embora, a gente se prometeu em meio a tantas incertezas, a gente se prometeu no amanhã, a gente prometeu se encontrar no amanhã, mas o amanhã nunca chegou.

Dos momentos que passaram e as fotos que marcaram, a nítida lembrança que tenho é da nossa dificuldade de caminhar. Sabe amor, talvez sejamos pontes turísticas, instáveis demais, balançamos demais e, mesmo com medo, a gente insiste em atravessar. A vista é bonita, o coração é palpitação: "amor, amor, amor, vamos atravessar, segura a minha mão".

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